quarta-feira, 27 de abril de 2011

A MULHER PESCADORA – ELIZETE E O MAR

Como vimos no texto anterior, o trabalho feminino relacionado à pesca artesanal precisa de muita atenção por parte dos governantes e lideranças sociais na região, principalmente aqui na Barra de Caravelas, onde a crescente pressão sobre os recursos naturais, os impactos ambientais e o pouco apoio dos governos fazem com que a renda diminua a cada ano e os conflitos sociais aumentem. 

Muitas mulheres tradicionalmente se lançam na atividade pesca, pois têm que auxiliar pais e maridos que já tinham um envolvimento com a atividade. Quanto à organização da atividade pesqueira em Caravelas, registra-se a existência da Colônia de Pescadores Z-25, com sede no Distrito de Ponta de Areia, onde são associados cerca de 2.000 pescadores, entre homens e mulheres, sendo 600 mulheres.   A entrevista com Elizete, moradora da Barra e pescadora desde os 10 anos de idade, conta que desde cedo acompanhava os pais, carregando o cesto samburá e assim entendeu a necessidade apoiar a família. Com a consciência de que a pescaria é um trabalho muitas vezes duro, sofrido e até mesmo perigoso, Elizete assumiu várias funções na pescaria, entre elas a captura em mar raso, a pesca em alto mar junto com o pai e os irmãos, o tratamento, o preparo de isca, tecelagem e reparo de redes e venda dos produtos.  



Além dessas atividades, para todas as outras pescadoras o cotidiano é marcado também por diversas outras atividades que incluem as tarefas domésticas, o cuidado com a casa, a coleta de lenha, a atenção com a família e com a comunidade em que vivem. A mulher pescadora é extremamente preparada para conduzir a vida doméstica, pois consegue administrar as dificuldades diárias e as atividades relacionadas à pesca diariamente, unindo a vida dentro de casa com a vida no mar.

Elizete conta que no dia-a-dia da pesca as dificuldades são grandes, principalmente pelo preconceito que algumas pessoas têm com a mulher pescadora, mas que mesmo assim nunca se deixou tomar pelo desânimo e na realização de seu trabalho sempre está alegre. O contato com a Natureza e as belezas do mar, junto com a riqueza das festas e comemorações locais muitas vezes é o que dá força para continuar, segundo ela. 
A riqueza da história do lugar se expressa nas lembranças e no conhecimento que todas as pessoas possuem sobre as atividades relacionadas à pesca, conhecimentos sobre o mangue, as marés, os ventos, as fases da lua e os mitos e crenças relacionadas à natureza. Dedete, por exemplo, tem o costume de sempre que vai ao mar, rezar para Iemanjá e pedir a proteção divina. Outras pescadoras e pescadores também mantém este hábito, sendo que alguns carregam a Bíblia, outros rezam para a Padroeira da Barra, Nossa Senhora da Conceição, ou outro santo de sua preferência. 

Segundo Elizete, ela se considera uma pessoa que luta pelo que quer e leva a vida na batalha e que, por isso mesmo, se sente realizada e feliz apesar das dificuldades da vida de pescadora. A exemplo de Elizete, muitas outras mulheres vem conquistando seu espaço e ajudando a mostrar a importância de seu trabalho, ajudando a conquistar seus direitos e valorizar a mulher pescadora. Mulheres como esta estão construindo seus próprios rumos e saídas para garantir uma vida melhor para as atuais e futuras gerações.

FONTE: Texto de Adriene Coelho, publicado no Jornal O Samburá, Edição 25, de Abril/Maio de 2011. 

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